sábado, 13 de abril de 2013

E se...

Lembro como se fosse hoje. Quando eu cursava a sétima série do ensino fundamental, no longínquo ano de 2001, um professor de História disse: "Historiadores não trabalham com o 'se'".

Ele citou o exemplo da morte da modelo Fernanda Vogel, que aconteceu no mesmo ano. "Poderíamos falar: 'SE a Fernanda Vogel não entrasse naquele helicóptero com João Paulo Diniz, ela não teria morrido. Na História não existe isso", completou o professor Gabriel, um dos melhores que eu tive nesta disciplina.

Sempre gostei de História e de histórias. Não me formei em jornalismo à toa. Por outro lado, também sempre recorri ao tal do 'se' nos meus diálogos.

Peste atenção que falei nos diálogos, não nos textos jornalísticos. Assim como historiadores, jornalistas evitam fazer suposições. Trabalhamos com os fatos. A tal objetividade factual.

Mas como isso é um blog, vou me dar a liberdade de utilizar a conjunção.

É curioso perceber que utilizamos o 'se' para tudo. Desde fatos corriqueiros até aos acontecimentos anormais.

Quem nunca, no meio de uma noite de azia, disse: "SE não tivesse comido tanto..."

Nesta semana, voltei a pensar na conjunção. Acredito que todos (e poucos) leitores do 'Bacerladas' devem ter acompanhado a notícia da morte do jovem Victor Hugo Deppman, 19, no dia 9 de abril.

Fora a revolta que familiares e amigos sentiram com o assassinato, uma dúvida deve ter pairado em suas cabeças: "E se..."

E, provavelmente, ficaram mais perplexos quando descobriram que neste caso não há o 'se'. Não só pelo fato de que sua vida não voltará, mas também porque Deppman fez tudo da maneira correta.

Ele entregou o celular e não reagiu, o que não foi o suficiente para o assassino poupar sua vida.


A minha intenção não é gerar um debate sobre a redução da maioridade penal. Eu só queria saber SE um dia estaremos livres de mortes estúpidas como essa.

Sei que ninguém tem a resposta para meu dilema. Infelizmente, não acredito na solução.

Não chego a ser um apocalíptico que desistiu dos humanos. Sei que há muitas coisas boas no mundo, mas dói saber que o homem seja capaz de cometer atrocidades como o assassinato de Victor Hugo.

SE a nossa realidade é crua, resta-me imaginar uma vida nua e pura.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O preço de um resgate

Fazia tempo que não aparecia por aqui, não é mesmo? No país do carnaval, às vezes, a curtição é necessária. O problema é quando esta mesma mesma curtição causa danos. Este foi meu caso. Mas, aos poucos, estou me recuperando.

Não costumo falar diretamente sobre mim no blog. Uso metáforas, personagens e nomes fictícios. O leitor (a) mais atento (a) já percebeu o 'truque'.

Nas doze postagens anteriores, também não falei sobre esporte. Já escrevo demais sobre o tema profissionalmente. Aqui é um espaço livre para devaneios. E eu gosto muito de devanear...Principalmente acompanhado de cerveja, cigarro de menta, tequila e amigos.

Uma combinação quase perfeita, porém pouco (ou nada) saudável. Ainda mais quando uma fritura é acrescida a este menu. É uma bomba atômica, eu diria.

Hoje, excepcionalmente, falarei sobre mim e sobre esporte. Com uma pitada de devaneio (não, não estou bebendo neste momento).

Antes de realizar uma ressonância no joelho esquerdo, ontem à tarde, fui surpreendido por um filme de 2007 chamado "O resgate de um campeão" --Resurrecting the champ (no original em inglês).



Só o fato de contar com o Samuel L. Jackson já seria o necessário para chamar a minha atenção. Mas o filme tinha mais: falava sobre um jornalista esportivo, interpretado por Josh Hartnett, em busca de uma grande história.

E ele achou a tal história em uma mentira inventada por Jackson, que deu vida a um ex-pugilista, morador de rua nos dias relatados pelo filme.

Em determinado momento, a mentira foi benéfica aos dois protagonistas. Mas, por pouco, não acabou com a carreira do jornalista.

Pensei no assunto. Claro que o jornalismo exige verdade e objetividade factual. SEMPRE.

Mas será que a nossa vida não está pragmática demais? Será que não há espaço para devaneios e mentiras que, de certa forma, nos resgatam desta cruel realidade?

Esqueçam os fatos, esqueçam os jornais. Fechem os olhos e imaginem: "Qual será minha mentira de hoje para me sentir melhor?"

Qual é o preço que está disposto a pagar para resgatar você de si mesmo? Na Teoria da Comunicação, os estudiosos falam de primeira e segunda realidade. Qual delas você quer?

Fugir da realidade é muito mais do que postar coisas bonitas no Facebook (apesar de todo este discurso parecer exatamente isso). É crer que a dor seja passageira por mais que seu médico diga o contrário.

Sair do "baseado em fatos reais" para "ficção" talvez não seja uma alternativa. Às vezes, pode ser a única solução.

Aja sem os pés nos chão. Afinal, no fundo, todos querem mesmo é voar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Guarda baixa

Horas antes da luta de sua vida , ele sorria. Mostrava confiança na vitória. Todos os gestos eram calculados para aparentar tranquilidade.

Cada palavra solta era trabalhada com a precisão de ourives. Nada poderia sair do lugar.


Havia chegado o sonhado momento. Foi chamado para entrar no ringue. Suava, respirava fundo e desferia socos no vácuo. Estava tudo sob o controle.

Encarou o oponente, mas não conseguiu ficar com os olhos fixos no adversário por muito tempo.

O combate começou e seu pensamento era só se esquivar. Não conseguia atacar o rival. Os braços pareciam presos.

- Como ficaram tão pesados? -- indagava-se enquanto se movimentava de um lado para outro.

A poucos segundos de terminar o primeiro round, levou um duro golpe. Um direto de direita acertou em cheio a sua face. Caiu.




O juiz abriu contagem, mas antes de chegar aos seis segundos, levantou-se. Soou o gongo.

- Reaja! Não fique com a guarda baixa --disse o técnico.

Era a mesma coisa de não ter dito nada. Naquele momento nada mais fazia sentido. Estava desorientado.

Não demorou muito para receber outro soco no segundo round. Beijou a lona novamente. Desta vez, não se reergueu.

A poça de sangue ao redor denunciava o fracasso. Não tinha mais volta. Era um derrotado.

Os olhares dos amigos, técnico e parentes lhe mostraram uma coisa que, no fundo, já sabia.

A postura de vencedor antes da luta enganou apenas uma pessoa: a si próprio. Ele era um péssimo ator.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Uma experiência na cidade grande --final

...E ele entrou. Avistou o balcão e pegou a primeira cerveja. Naquele momento, havia esquecido tudo: chácara, Fuleca, cravos, o cheiro ruim de seu perfume e sua roupa ralé...Estava feliz, ainda sob o efeito da Tequila.

Quando virou o corpo e olhou para trás, mal podia acreditar no que via: mulheres seminuas dançando sensualmente. Só havia visto aquilo na TV.

Decidiu sentar e observar aqueles corpos suados e, ao mesmo tempo, atraentes...Nunca tinha visto o paraíso, mas tinha certeza que não poderia ser melhor.

Quando estava pensando em se levantar para buscar a segunda lata, Ralecab foi surpreendido por um pedido:

- Posso me sentar com você? --perguntou uma morena de olhos verdes, lingerie vermelha e voz sensual.





-Po..po..po..de --respondeu incrédulo e gaguejante o nosso herói.

- Qual é seu nome, amorzinho?

- Suiciniv Ralecab e o seu?

- Que nome diferente! Cláudia, mas pode me chamar de Claudinha.

- Prazer, Claudinha.

- O prazer será todo nosso. Primeira vez na casa?

- Sim. E você?

- Bom, eu trabalho aqui há um ano. Só não venho de segunda.

- Como?

Astuta, a garota percebeu que o menino era ingênuo (ou fingia ser). Na dúvida, decidiu fazer o jogo dele. Não tinha descolado nada até aquela hora e precisava faturar. Apesar do mau cheiro e da aparência, nutria a esperança que ele pudesse ter um cartão de crédito. Afinal, hoje em dia todo mundo tem.

- Que lindinho! Ele é puro. Mas pode deixar que a Claudinha vai cuidar bem de você...

Então começou a fazer carinho no rosto, pescoço, peito e continuava descendo a mão...barriga, pernas... até que...

- Vamo fazê amô gostoso? Vamo? --sussurrava no ouvido de Suiciniv. E a mão não parava.

Ralecab nunca tinha sentido algo parecido. Seu corpo parecia que estava em ebulição. Embriagado pela tequila, cerveja e pelo perfume de Claudinha (que não era tão melhor que o seu), decidiu se arriscar. Não sabia direito o que era aquele "amô", mas imaginava que era algo bom pela sensação do momento.

- Vamos!

-Humm, gostoso. Vamos lá no caixa acertar então? R$110 uma hora, com o quarto incluso.

- O que? Eu..eu..eu...só tinha dez reais e gastei para entrar..Putz, nem sei como voltar para casa...

- Tá brincando com a minha cara?

- Não, veja bem, eu sou da roça...

- Você pode ser da puta que pariu. Seu moleque...Bem que eu percebi que era pobre mesmo. Olha essa roupa, esse perfume vencido...Vai tomar no seu cu e some da minha frente. -- disse Claudinha ao se levantar do sofá e deixar o protagonista sozinho e excitado.

Ele nem quis saber das duas latinhas que tinha direito. Para falar a verdade, esqueceu mesmo. Estava arrasado. Sentia-se humilhado quando ganhou a Augusta de novo.

Assim que colocou o pé na rua, ouviu um rapaz gritar com uma mulher: "Sua vaca!"




Lembrou-se da Fuleca. Estava com fome e tudo que precisava era um copo de leite.

"Se eu ordenhar aquela moça... Será que sai leite? Mas quanto ela cobraria? Se a outra cobrou R$110 só para passar a mão em mim, se eu passar a mão deve ser mais caro...Ainda teria o valor do leite... Ah, Fuleca..Cadê você com seu leite gratuito?", indagou-se bêbado e faminto.

Cansado e sem um puto no bolso, Suiciniv Ralecab caiu na calçada, pegou no sono em uma rua que nunca dorme e pensou: "Seria tão louco, se fosse verdade".



terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Uma experiência na cidade grande --parte 2

Ralecab hesitou no começo...

- Beber o que?

Cuervo, com um sorriso de canto, respondeu:

- Tequila.

O nosso protagonista continuou ressabiado, mas pensou: "Por que não? Não vim aqui para largar o marasmo da chácara?"

Contou o dinheiro que havia sobrado dos R$ 50 reais...Ainda tinha R$ 40...

- Dá para pagar?

- Claro! -- respondeu, Cuervo. Quantas doses você vai querer? --completou.

- Quantas? Sei lá..Preciso de dez reais para voltar para chácara.

- Bahia, vê três doses de tequila para o moço...

Depois de ouvir as explicações sobre o sal e limão, Ralecab secou os três copinhos com aquele líquido amarelo em segundos. Pensou que iria vomitar, pois a tal da tequila desceu rasgando. Segurou a ânsia, pagou a conta e já não tinha mais noção de quem era.

- Preciso ir embora!

Saiu pela Augusta novamente, mas nem sabia onde estava. Nunca havia bebido algo parecido...Para ele, já era o maior porre da vida...

De repente, deparou-se com outra casa cheia de luz, de nome engraçado e com um cara de terno e gravata na porta.

Pensou que era o mesmo lugar, mas o letreiro era diferente: "Blu-blu-blu..nai..nai..te. Blu naite" foi o que conseguiu entender de "Blue Night"...Sabia que era inglês ( e não manjava porra nenhuma, mas estas duas palavras ele já tinha escutado e visto em algum lugar)...




- Quer conhecer a casa?

- An?

- Quer conhecer a casa? Paga dez reais e bebe três cervejas...

Desta vez, ele não pensou duas vezes. Era exatamente o que tinha no bolso, seus pés estavam doloridos e precisava se refrescar (cerveja ele conhecia bem). Entrou...Só não se lembrou que a volta dependia daqueles míseros trocados...

To be continued

Uma experiência na cidade grande

Humilde, com os pés descalços e com uma inocência incomum, Suiciniv Ralecab vivia nos rincões da zona leste de um feudo distante.

Na sua chácara Lúcia Matilde, nome dado em homenagem a sua bisavó, ele acompanhava o crescimento do mundo de uma forma pura e alienada. Mesmo assim, era feliz.

Ralecab não conhecia o luxo (por isso, não sentia sua falta). Estava satisfeito com o pouco que tinha.

O seu xodó era a vaca Fuleca, pois ela fornecia o leite de cada dia. E como gostava de ordenhá-la pela manhã.


O nosso herói (se os BBB's são heróis, Suiciniv Ralecab era super-mega-foda-phd em heroísmo)raramente ficava nervoso. A não ser que a sua colheita o deixasse na mão.

Quando isso acontecia, ele enrolava uns cravos em uma folha de árvore, acendia e sugava. Sem saber o porquê, aquele ritual o deixava mais calmo.

Fora os imprevistos da natureza, as coisas andavam tranquilas na vida do nosso humilde protagonista. Até que um dia, ele resolveu largar o marasmo da chácara (não confunda com outro personagem, bem menos relevante...) e foi para o centro do burgo, de nome paulista.

Colocou sua melhor roupa: uma calça jeans (que deveria ter uns seis anos, no mínimo), um sapato número 37 (ele calçava 39) e uma camiseta polo branca (já estava amarela pelo tempo de armário. Afinal, era uma peça que só usava em solenidades --casamento do primo do tio do amigo regado a croquete, quermesse e coisas do gênero).

Usou um pingo do perfume vencido, que, logicamente, deixou fedendo a chácara inteira. Era um domingo. Pegou 50 reais (a economia do ano) e disse: "Não tenho medo nenhum de gastá-los".

Quando chegou ao destino, ficou encantado com as luzes. Já tinha escutado falar de uma tal de Paris, mas com certeza a desconhecida cidade não era tão luz quanto o burgo paulista.




Andou um bocado...sem destino...até que se deparou com uma placa: "Augusta". Ralecab não sabia ler direito, porém com algum esforço, lembrou-se que era o nome da sua tia. Resolveu descer.

Caminhou e olhou para aquelas luzes vermelhas e nomes engraçados: Casarão (e não passava de uma porta minúscula com um cara de terno e gravata na porta), Las Jegas, Emanoelle (Já tinha visto em um sábado de madrugada uma alcunha parecida na TV: Emannuelle. Até pensou que a poderia encontrá-la lá dentro, mas preferiu não entrar) e resolveu parar em um lugar sem luzes. Era um bar escuro.

Sentou-se no balcão e encontrou um rapaz simpático.

-Qual é seu nome, jovem?

-Suiciniv Ralecab e o seu?

- José. Mas pode me chamar de Cuervo. Aceita uma bebida?

To be continued

domingo, 27 de janeiro de 2013

E se pudesse nascer de novo?

Não gosto da sensação de tristeza. Acho que ninguém gosta. Mas reconheço que a dor pode ser motivacional e fonte de inspiração.

Às vezes, a dor pode ser evitada. Digo isso pensando nos familiares dos 245 mortos em Santa Maria (RS). Nada (nem o retorno da presidente Dilma Rousseff do Chile) apagará a dor e trará as vidas perdidas de volta.

Não adianta fechar o local e nem cobrar multa. A ferida foi aberta e talvez nunca seja cicatrizada.

Em outras situações, não temos como prever e/ou prevenir. O que fazer, então?

Se soubesse a resposta, com certeza poderia participar de festas ao lado do Eike Batista e Carlos Slim. Talvez fizéssemos um reality show: "Homens ricos".

Porém, infelizmente, não consigo resolver esta questão e não posso ganhar dinheiro com a solução para tristeza inesperada. Continuo pobre, aqui na Zona Leste e satisfeito por ir a um barzinho no fim do dia.

Enquanto isso, o meu pessimismo sempre me leva para a mesma pergunta: "Se eu pudesse nascer de novo?"

Não precisaria de um berço de ouro. Um pouco mais de altura, muitos quilos a menos e voilà.

Ah, menos racionalidade também seria útil. Afinal, o mundo é dos loucos. Ser racional é cafona e há tempos está fora de moda.

Ou quem sabe poderia ser um pássaro? Em caso de temperatura baixa, voaria para o calor e vice-versa. Sempre em bando, mas sem conversas e sentimentos desnecessários. Apenas com o instinto de sobrevivência.


Penso demais, mas nunca é para o bem ou para o bom. Sempre é para o mal e para o mau. A lamentação é inevitável. Por mais que eu queria, há dias que o sorriso não consegue tomar conta do meu rosto.

O "Bacelardas" promete voltar a programação normal nos próximos dias.